A LENDA "PEPE"
Publicado segunda-feira, outubro 24, 2005 ás 00:56.
Foi há 74 anos que faleceu "Pepe". Nesta data, o Blog Armada Azul faz aqui uma breve homenagem ao nosso mitico e lendário jogador.
No dia 24 de Outubro de 1931, no Hospital da Marinha, para onde tinha sido transportado na véspera em estado grave, faleceu um moço de 23 anos, operário das oficinas da Aviação Naval, jogador internacional do Clube de Futebol ‘Os Belenenses’, figura inconfundível de homem e de desportista – chamava-se José Manuel Soares, o ‘Pepe’.
Pepe deixou indeléveis recordações nos companheiros, nos adversários e em todos os adeptos do futebol. Deixou também a mística do seu nome e da sua acção em campo ligados a um outro misticismo, que foi o célebre ‘quarto de hora à Belenenses’, que a história do grande jogo regista em letras azuis. Talvez porque Pepe foi figura central de um desses quartos de hora, quando o Belenenses, em 28 de Fevereiro de 1926, no Campo das Amoreiras, culminou a recuperação de 1-4 contra o Benfica, marcando, no minuto derradeiro, o golo da vitória do seu clube. Houve festa na ‘aldeia’ de Belém, tão grande foi essa tarde, como enorme foi a dor da população belenense quando pouco mais de cinco anos passados sobre o feito de Pepe, o acompanhou ao cemitério da Ajuda.
Pepe sobrevive ao tempo que caminha e destrói a memória dos homens. Pepe resiste porque ele simboliza o velho Belenenses erguido por gente da praia, por homens modestos, que viviam no bairro operário e levaram para o seu clube a têmpera de quem sabe quanto custa a vida e quanto esforço é preciso para a enfrentar e vencer. Por isso, a camisola azul dos Belenenses não está ligada apenas ao mar em estreita ligação com a Cruz de Cristo, que de Belém saiu a bordo das caravelas, mas ao fato de ganga, também azul, e que Pepe vestiu mais vezes do que o equipamento do seu clube.
Apenas durante cinco anos, foi o ídolo dos belenenses e o temido mas respeitado adversário dos outros clubes. Foi internacional, ganhou o Campeonato de Lisboa em 1926, 29 e 30. Foi campeão de Portugal em 1929. Participou em 140 jogos. Assistiu ao crescimento do seu clube. Viu-o passar do Campo do Pau do Fio para as Salésias, facto importante que aconteceu em 29 de Janeiro de 1928. Acompanhou-o das acanhadas instalações da Rua Vieira Portuense para uma sede condigna na Rua da Junqueira. Ajudou a projectar um simples clube de bairro, que tivera um princípio agitado e, também, contrariado.
Na época de 31/32, o Belenenses voltou a conquistar o título de campeão de Lisboa. A fotografia comemorativa do feito mostra os jogadores com o sinal de luto nos braços. Neste mesmo ano, foi inaugurado nas Salésias, durante as comemorações do aniversário do Clube, o monumento a Pepe, transferido para o Restelo quando o Belenenses foi obrigado a abandonar as Salésias, facto que encerra um ciclo brilhante da vida da colectividade belenenses, fundada e sublimada por homens com a estatura de José Manuel Soares, um dos rapazes da praia.
A morte de Pepe, o menino querido de Belém, o jogador invulgar que empolgava as multidões e criava simpatia entre os adversários, mesmo quando dava a vitória ao seu clube ou à selecção nacional. Desapareceu há muito tempo mas a sua imagem e a sua história comovente têm atravessado incólumes as gerações, porque os homens antigos entregam aos novos o testemunho da sua admiração por um moço paupérrimo que nasceu em Belém e morreu aos 23 anos, deixando para a eternidade o misticismo que cria e alimenta as lendas.


