CARLOS CARVALHAL E O PREÇO DOS BILHETES

Artigo publicado no portal MaisFutebol:

"A discussão começou com um pedido de reacção às palavras de Co Adriaanse sobre o futebol português. Carlos Carvalhal defende o treinador do F.C. Porto nas críticas aos números de cartões amarelos, mas aponta outra razão para a falta de gente nos estádios. O preço dos bilhetes.

A questão dos amarelos parece-me que tem pertinência. É uma coisa que tem de ser revista, mas já quanto ao público penso que há desconhecimento total. Não é pela qualidade do futebol, das equipas ou dos treinadores. O futebol tem menos gente devido ao preço dos bilhetes e ninguém reflecte sobre isso.

Estava dado o mote para uma discussão que alargou a conferência de imprensa. «O poder económico é menor neste momento, e aquilo que leva o público a não ir ao futebol é o preço dos bilhetes. Tirou-se o futebol ao povo. Todos sabemos que são os estratos mais baixos da sociedade que estão habituados a ir aos estádios. Mas são estes que agora não têm dinheiro para ir ao futebol», alertou. «Há que fazer com que as pessoas voltem aos estádios caso contrário começa-se a perder o futuro.»

«Está caro ir à bola...»
Carvalhal explica que hoje em dia levar um filho ao futebol custa a dobrar, como se fosse acompanhado de uma pessoa adulta. «Eu ganhei o hábito de ir ao estádio, quando o meu pai me levava pela mão. Tinha quatro, cinco anos», recordou. «Agora isto está a tornar-se um problema acrescido, porque está a perder-se o hábito de levar os filhos ao futebol porque é obrigatório comprar um bilhete de adulto, integral», apontou. «E não é quando esses miúdos tiverem 14 ou 15 anos que vão começar a ganhar o hábito de frequentar os estádios.»

Carvalhal diz que «não é a tv que está a tirar público dos estádios». «Os jornais continuam a vender, as rádios continuam a ser ouvidas. Quando era novo vivia num bairro chamado Bairro da Solidariedade. De gente com menos recursos. E essas pessoas continuam a comprar jornais e a ouvir relatos. Mas, se calhar, já não têm dinheiro para ir aos estádios. Hoje em dia é quase preciso ter um bom carro, um bom emprego ou ser gerente de uma empresa para se ir ao futebol. Está-se a tornar o futebol um jogo elitista. Há que baixar os preços, torná-los mais apelativos. Está caro ir à bola».

Carvalhal pergunta: «Há alguém que pense o futebol neste momento?»
Apontada a razão principal para não haver mais público nos estádios portugueses, na opinião de Carlos Carvalhal, resta saber o que se pode fazer para contornar o problema. O treinador do Belenenses fala do que o clube já começou e está a pensar fazer, e do que «as instâncias superiores» poderiam fazer. Carvalhal só não sabe a quem se deve dirigir para falar sobre o assunto.
«Há que aprofundar esta questão, pedir que se faça um estudo sério sobre o assunto», pediu Carvalhal. «Temos de entender que se as pessoas vierem ao estádio, isso é bom para o clube porque consomem nos bares do estádio, compram peças de merchandising...Têm de ser tomadas medidas que devolvam o futebol ao povo», alertou.
Carvalhal interroga-se sobre quem deve reflectir sobre estas questões. «Quem é que pensa no futebol neste momento?», perguntou aos jornalistas. «Nunca vi este problema a ser debatido», assumiu. «Porque não organizar uma reunião onde os treinadores possam ser ouvidos sobre esta e outras questões?», voltou a questionar. «Ou mesmo uma reunião periódica com os treinadores, em que estes fossem obrigados a comparecer sob risco de serem penalizados? Mas a mim ninguém me pergunta nada. Eu gostava de ser ouvido sobre o futuro da modalidade. Volto a dizer que tem de haver alguém superior que comece a pensar nisto tudo».



«Preferia ter 20 mil a pagar mais barato do que cinco mil a dar a mesma receita»
Os jornalistas questionaram então Carvalhal porque não começa o Belenenses a tomar a iniciativa de baixar os preços dos bilhetes. «Nós já trabalhamos isso. Os mais novos podem entrar sem pagar, e estamos a pensar em vantagens e preços especiais», anotou. «Provou-se que não foi o facto de haver melhores condições nos estádios que passou a haver mais gente nas bancadas. A razão é mesmo o preço dos bilhetes», reafirmou, dando um exemplo: «No ano passado, contra o Sporting de Braga, o Belenenses deu entradas livres e conseguimos encher praticamente o estádio. Se as pessoas começarem a ganhar o hábito de ir à bola vai haver mais gente nos estádios. E isso melhora também o próprio jogo. Por exemplo, se virmos um Celta de Vigo-Espanhol, com o estádio cheio, mesmo que o jogo não seja bom, já parece um grande espectáculo. Agora, se não temos ninguém no estádio, se apenas se houve um bombo ou assobios aqui e ali, mesmo que os jogos sejam bons, nunca parece que são porque não há ambiente exterior. Os próprios jogadores necessitam desse ambiente para jogar melhor.»

Carvalhal salienta também que a iniciativa pode partir internamente, dos clubes, e para isso deixa uma opinião muito própria. «Eu preferia jogar com 20 mil pessoas no estádio, fazendo uma receita pequena, do que ter cinco mil a fazer a mesma receita. É igual na receita, a única diferença é que teríamos muito mais gente a apoiar."


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